quinta-feira, 18 de junho de 2020

Será que conhecemos a professora Ana César?...

 

Entrevistadoras: Beatriz Pereira (BP), Érica Lopes (EL), Joana Madureira (JM), 10.º E, Desenho A
Entrevistada: Professora Ana César (PAC)

Boa tarde professora Ana César!
BP Somos três alunas do décimo ano do curso geral de Artes Visuais. Esta entrevista tem como propósito dar a conhecer a professora para além das paredes da sala de aula. Em primeiro lugar queremos agradecer a disponibilidade para nos receber. Gostaríamos de pedir autorização para a gravação do áudio da entrevista. Muito obrigada.
BP Qual é a formação académica da professora? Pintura? Escultura? Design? Arquitetura? Outra? Onde tirou o curso?
PAC Eu sou arquiteta. Até ao quarto ano estudei aqui no Porto e depois fui para Lisboa, onde acabei a licenciatura na Faculdade da Universidade Técnica de Lisboa, tendo feito lá o quarto ano (novamente, por questões de equivalência ) e o quinto ano.

EL Em que escolas já lecionou? Há quanto tempo é professora na nossa escola?
PAC Já estive em Pedrouços, em Guifões, na escola Augusto Gomes, em Gondomar, em Famalicão (Gavião, uma localidade lá próxima), em São Mamede de Infesta e, entretanto, fiquei em Águas Santas e não penso sair. Dou aulas aqui há cerca de nove anos.

JM Em que momento da sua vida percebeu que queria ser professora de Artes Visuais e o que a motivou? 
PAC A minha mãe também era professora. Desenhava muito bem e para mim ela era foi desde cedo o meu modelo, aliás em minha casa tenho alguns desenhos feitos por ela. Fascinava-me ver como desenhava tão bem. Desde cedo fiquei “cativa” bastante para o mundo do desenho e quem me abriu essa porta  foi a minha mãe. Por vezes trazia para casa histórias de vida dos seus alunos. Não raras vezes limpou lágrimas e deu conselhos. Eu imaginava que também poderia estar numa sala de aula, dar-lhes os melhores ensinamentos de que fosse capaz, ajudá-los a enfrentar as dificuldades e incutir-lhes a importância da escola para as suas vidas.... 

BP Na altura de escolher o curso, os seus familiares apoiaram-na?
PAC Sim, sempre. 

EL Como era o ensino de Artes quando era aluna? Houve mudanças? Em que sentido?
PAC Houve mudanças para melhor. Hoje o ensino está muito mais diversificado. Os alunos têm experiências didáticas muito diferentes, têm ferramentas de trabalho muito diversificadas e muito mais completas do que nós tínhamos. Será de todo impensável para os alunos de hoje imaginar tirar um curso superior sem acesso a telemóveis ou computadores. Eu andava já no terceiro ou quarto ano da faculdade quando algumas pessoas começaram a ter computadores. Não era uma ferramenta de uso diário e nem sequer era uma ferramenta universal. Poucas pessoas tinham acesso porque eram extraordinariamente caros. Até o número de fotocópias tiradas eram contadas. Não se tiravam dezenas de fotocópias. A totalidade dos trabalho teóricos era manuscrita. As aulas eram passadas a tirar apontamentos do discurso do professor. Na faculdade, nas aulas de figura humana, por exemplo, havia todos os materiais que há hoje, mas eram muito mais caros e os alunos não tinham tão fácil acesso a esses materiais. Hoje, aos meus alunos do 3.º ciclo, dou a possibilidade de fazer experiências com pastel de óleo e pastel seco, materiais que só conheci muito mais tarde na minha vida académica.Se o aluno não tiver acesso à compra desses materiais, a escola providencia e ninguém fica para trás. Em questão de acessibilidade de materiais, vocês têm a vida muito mais facilitada.

JM Qual é a sensação de ver a evolução de um aluno? (em Educação Visual, Desenho, Geometria Descritiva, Oficina de Artes ou noutra disciplina).
PAC Fico muito contente e orgulhosa sempre que os meus alunos seguem o caminho académico das Artes. Porquê? Para já, porque significa que de alguma maneira se interessaram e gostaram da disciplina que eu lecionei, permito-me pensar que, de alguma maneira, contribui para essa escolha. Gosto de acreditar que sim! Acho fundamental um aluno decidir a sua escolha não puramente por razões profissionais. Às vezes o motivo que  faz a  escolha é o provável (?) sucesso financeiro…." eu tenho boa nota, se calhar com no curso X ganho mais dinheiro, então vou para esse curso..." Não raras vezes, essa “fundamentação”pode traduzir-se numa infelicidade. Muitas vezes há pessoas que não acabam os cursos, mudam a meio ou terminam mesmo as licenciaturas consideradas com mais empregabilidade e portadores de felicidade, porque bem pagos…. e exercendo aquela profissão, não são muito felizes. Mesmo quando se trabalha naquilo de que se gosta, há dias maus…, imaginem como será o quotidiano de uma pessoa com uma profissão de que nunca gostou só porque acha que vai ter mais saída. Infelizmente, hoje em dia vocês, jovens, têm um grande problema: não há empregos para a vida, não há segurança em quase nenhuma saída profissional. Portanto fico sempre contente em ver que os alunos escolhem com EMOÇÃO o seu percurso.Quando o rumo é para as Artes, fico muito agradada e com uma sensação de vitória e de dever cumprido. Seja qual a vertente de estudo que sigam, o importante é gostarem, sentirem-se mais aptos para seguir aquela variante e tentarem ser felizes e pessoas realizadas.

BP Como lida com as diferenças de estilo de desenho dos alunos?
PAC Lido bem com as diferenças de estilo dos meus alunos, só não lido bem com os diferentes graus de preguiça! Como vocês sabem, há colegas que trabalham bem, outros que trabalham mais ou menos, e outros que nunca trabalham. E é com esses últimos que é necessário ter uma dose acrescida de paciência. É necessário fazê-los entender que a escola também é um lugar onde nós temos de cumprir tarefas, independentemente de  gostarmos mais de umas do que de outras. Tal como na vida, nós temos de fazer escolhas. Mas, antes de fazermos essas escolhas, temos de ter também uma base sólida de aprendizagens e de conhecimentos que compete à Escola dar. O aluno, como todas as pessoas em sociedades organizadas, tem direitos e obrigações. A escola é o local de trabalho do aluno. O currículo escolar atual apresenta uma série de disciplinas e conteúdos programáticos. Umas colhem o agrado de uns, outras não são muito queridas, e outras ainda são mais ou menos toleradas. Mas isso é assim mesmo. A Escola mostra-nos todo o espectro do conhecimento, pois só assim poderemos fazer posteriormente as nossas escolhas. Relativamente à disciplina de Educação Visual, quando o aluno diz “Mas eu não sei desenhar!”, o saber desenhar também é passível de ser aprendido. Podemos ensinar  e educar os nossos olhos para observar, medir, fazer proporções…. E a disciplina não é tão redutora que se fique apenas pelo registo de objetos. Pretende desenvolver a criatividade, a precisão, construção de objetos, maquetas, BD, adquirir noções de história de Arte e de obras de artistas plásticos…. Existem conteúdos que permitem a  qualquer pessoa seguir e construir o solicitado, tão somente manuseando uma régua e um esquadro. Em resumo, como é que eu lido? Há dias em que não lido muito bem, porque nem sempre tenho aquela capacidade de tolerância quando vejo alunos que não fazem  nem querem fazer rigorosamente nada. E, além disso, ainda perturbam. Portanto, às vezes, não é fácil. 

EL Qual é a parte mais difícil de ser professora?
PAC É lidar com a falta de respeito. Não só dentro da sala de aula como nos corredores. Há crianças e adolescentes que não se respeitam a eles próprios, não respeitam os colegas, os funcionários e os professores. É algo que me entristece bastante e, cada vez mais me faz baixar os braços. Todos os alunos têm dificuldades, às vezes percebe-se melhor uma matéria do que outra. Gosta.se mais desta disciplina do que aquela, prefere.se a geometria plana à BD, tem-se muita dificuldade em aprender.... com a falta de capacidade eu sei lidar bem, mas com a falta de respeito e a falta de educação custa-me muito mais !!

JM Quais são os projetos/trabalhos que mais gostou e se orgulha de ter realizado? 
PAC Um trabalho coletivo numa escola em Fânzeres. No último dia do ano, a nossa disciplina juntamente com Educação Física, Educação Tecnológica, Educação Musical e Educação Física (todas as disciplinas pertencentes ao grupo de Expressões), organizaram um Dia Aberto com atividades até às 00h00. A comunidade aderiu em peso. Houve pinturas com ilusão ótica, no chão, que oferecia a ilusão de que um barco estava a descer um rápido….. Houve oficinas de olaria, onde as pessoas podiam experimentar a conceção de uma  peça. Na oficina de Origami as pessoas faziam animais, na banca gastronómica acalmavam-se as fomes pela noite adentro. O desfile de moda das roupas que se recuperaram durante o ano foi, ,juntamente com as pinturas faciais e as coreografias dos modelos (alunos), o ponto alto da noite. A multiplicidade e complementaridade  dos  ateliês apresentados foi uma abordagem pedagógica tão bem conseguida, que gostei bastante de participar na execução desse dia. Terá sido o evento mais vibrante que, como professora, me encheu de orgulho mas também de dias continuados de trabalho.... Mas no final valeu muito a pena! Foi muito gratificante  e decerto aqueles alunos e aquelas famílias nunca se esquecerão daquele dia.

BP Para a professora, que técnica de trabalho é mais agradável de executar?
PAC Se calhar, pastel de óleo. É muito plástico, permite que consigamos sempre dar várias formas e até fazer algumas correções, fazer algumas variações de cor, até determinado ponto. É um material muito interessante. Quando adicionado com terebintina torna-se muito mais fácil de trabalhar. Permite trabalhos visualmente muito interessantes. 

Érica: Quem é a sua maior inspiração no meio artístico? Porquê?
PAC Três das pessoas que eu admiro muito, em termos nacionais, são:  Bordalo II, um artista que a partir de peças/resíduos de plástico, que chegaram ao fim da sua vida útil e são parte integrante do lixo urbano, as transforma em esculturas extraordinárias e pinturas tridimensionais; Alexandre Farto, mais conhecido como Vhils, que, com um berbequim escava sobre a superfície de empenas de edifícios abandonados e com a técnica de baixo relevo, as transforma em expressões faciais de pessoas.Técnica e abordagem inéditas fazem com que o artista tenha obras por todo o mundo, desde Singapura até aos Estados Unidos; Joana Vasconcelos, uma artista que explorou o universo do feminino e o valorizou. Foi a artista que mais milhares de pessoas levou ao Palácio de Versalhes com uma exposição sua.

JM Para além do ensino e das Belas Artes, de que outras formas passa o tempo? Quais são as suas outras paixões?
PAC Ui! Tenho muitas! Muitas! Faço candeeiros, desenho móveis, marionetas, desenhos,  peças em barro, matrafonas…..  mas faço e consigo ocupar-me com muitas coisas. Por exemplo, ultimamente  faço encadernações. Também gosto de fazer pão e  bolos...(risos)

 


 


 



BP Tem alguma visita a um museu/exposição guardada especialmente na memória? Se sim, a que se deve esse destaque?
PAC Estava com muita expectativa para conhecer o museu Guggenheim, em Bilbao, até porque foi feito por um grande arquiteto da arquitetura orgânica, Frank Gehry. Um senhor já com os seus oitenta anos ou mais. Sabia que estava anunciada uma exposição intitulada “De Degas a Picasso”....   Pensei “ uma oportunidade única de conhecer o edifício e obras emblemáticas destes artistas! Uma enchente de cultura!” Pensei que ia realmente ver muitas obras quer do Degas, quer do Picasso. Quando cheguei a Bilbao, ao ver o exterior do museu, achei de facto que era um edifício maravilhoso. Uma escultura ondulante e prateada, gigantesca!! Ao entrar e ao ver a exposição, fiquei muito desiludida. A única coisa que tinha do Picasso era um quadro pequenino, um esquisso numa folha, que parecia quase de guardanapo, portanto foi uma deceção. Valeu a pena pela monumentalidade da arquitetura do Frank Gehry.

EL Que museus/exposições ainda gostaria de visitar?
PAC Gosto de pensar que não vou morrer antes de ir ao museu Guggenheim, em Nova Iorque, de Frank Lloyd Wright.

JM Está a ser difícil manter a criatividade e o ânimo para o trabalho neste período de isolamento? Tem trabalhado em algum novo projeto?
PAC Nesta situação, a pandemia abre portas também para outro tipo de trabalhos. Por exemplo, aos alunos de oficina de artes do 12.º ano, foi proposto um tema apropriado aos nossos dias: fazer um modelo tridimensional de um super-herói que nos vai libertar da pandemia.. A pandemia teve destaque e serviu de guião à elaboração desse trabalho.  Em termos pessoais, nas horas livres tenho-me dedicado a fazer encadernações mais personalizadas.

BP Gostaria de acrescentar mais alguma coisa à entrevista?
PAC Não, acho que foi uma ideia muito interessante. Proposta pela nossa colega Joana Gil e posta em prática e realizada pela professora Cristina Magalhães, que é um elemento muito ativo e dinâmico no nosso grupo. E com isto, de certeza que todos vocês ficaram a conhecer melhor e mais um bocadinho, da pessoa que está para lá da professora ou do professor que vocês têm à frente na sala de aula. 

EL Poderia disponibilizar uma fotografia sua e uma fotografia de algum trabalho que tenha feito para acrescentar à entrevista?
JM Muito obrigada pelo tempo que nos dispensou. Gostamos muito de a conhecer! Vamos publicar esta entrevista no Blogartes, durante a Semana das Artes. As fotografias são para acompanhar o texto.
Muito obrigada!

3 comentários:

  1. Gostei muito de todas as entrevistas aos professores de Artes feitas pelos meus alunos do 10. E. A da professora Ana César, pela proximidade que temos, revelou verdadeiramente a sua particular personalidade como docente e ser humano: os seus ideais, as suas referências familiares e a sua pluralidade de artista. Parabéns a todos os entrevistadores e aos professores entrevistados. Acho que falta a entrevista da professora Ana Cristina Magalhães, promotora desta iniciativa. Fico a aguardar para amanhã. Beijinhos a todos.

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  2. Muito bem Ana, sempre a conhecer-te melhor!!!

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